Claudio Biern Boyd: "O "Dartacão" deixou memórias inesquecíveis"

Numa entrevista exclusiva à <strong>Notícias TV</strong>, o criador de <em>Dartacão</em> conta como nasceu este boneco e revela que a Julieta foi inspirada numa cadela cocker que teve na altura. O empresário espanhol fala sobre o futuro desta indústria, na qual trabalha há quase 40 anos, e recorda como se apaixonou pelos desenhos animados.
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"Era uma vez os três, os famosos moscãoteiros. Do pequeno Dartacão tão bons companheiros. Os melhores amigos são os três moscãoteiros. Quando em aventuras vão, são sempre os primeiros." Já passaram mais de 30 anos, mas muitos ainda sabem de cor e salteado a música que acompanhava o genérico do desenho animado Dartacão. Esta é, aliás, uma das explicações dadas por Claudio Biern Boyd, criador destes icónicos bonecos, para justificar o seu sucesso, acrescentando ainda: "Tem todos os ingredientes para agradar ao público. Tem um excelente guião, os bonecos são apelativos, tem personagens boas e más, tem suspense, ação e amor. E por isso deixou memórias inesquecíveis", explica em exclusivo à Notícias TV.

Produzido pela empresa espanhola BRB Internacional no início da década de 1980, este desenho animado, inspirado na célebre obra Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, não tardou em tornar-se um sucesso a nível internacional. Claudio Biern Boyd explica como foi o processo de criação dos bonecos que ainda hoje apaixonam miúdos e graúdos. "Gostei muito do livro do Alexandre Dumas e dos filmes que foram feitos sobre Os Três Mosqueteiros. Como também gosto muito de cães, e uma vez que este é um animal muito querido pelas crianças, decidi que deveriam ser eles os grandes protagonistas. A Julieta foi inspirada na cadela que eu tinha na altura, Sam, que era uma cocker", confidencia. Para os mais saudosos está reservada uma surpresa para 2016, já que Claudio Biern Boyd e a sua equipa se preparam para produzir uma longa-metragem de Dartacão que chegará às salas de cinema nessa altura. "Foi um desenho animado muito marcante para a geração entre os 35 e os 50 anos, pelo que decidimos avançar com este projeto", justifica o empresário.

"Quando era criança não tinha TV em casa. Entretinha-me a ler"

À semelhança de Dartacão, Claudio Biern Boyd também se inspirou na célebre obra literária de Júlio Verne para criar o desenho animado AVolta ao Mundo em 80 Dias de Willy Fog, que se estreou em Portugal em outubro de 1984. "Quando era criança não tinha televisão em casa. A forma que tinha de me entreter era a ler e os meus autores favoritos, que eram precisamente aqueles nos quais me inspirei para fazer estes desenhos. Através da minha imaginação criava as minhas próprias histórias com estas personagens", recorda o presidente da empresa BRB Internacional.

Dois anos mais tarde, em 1986, chegava à RTP o desenho animado David, o Gnomo, inspirado num livro de contos holandês, e que narrava as aventuras no bosque do gnomo David e da sua família e que incluía temas como ecologia e a solidariedade. A componente didática é um dos pilares mais importantes do seu trabalho, aliado aquele que é o seu grande objetivo: "A felicidade das crianças. As crianças de hoje são os adultos de amanhã e deixa-me muito satisfeito saber que pude contribuir para os momentos felizes que tiveram na sua infância quando viram estes programas", diz.

Uma das características transversais aos seus desenhos animados é o facto de os protagonistas serem, na sua grande maioria, animais. Claudio Biern Boyd argumenta que isso se deve ao facto de criarem uma "maior empatia com os humanos", sendo paralelamente uma forma de não suscitar violência entre as crianças. Também a música tem um papel de grande destaque nos seus desenhos animados, confessando que sempre teve um grande fascínio "por filmes e espetáculos musicais".

Uma imaginação muito fértil aliada à sua grande paixão por crianças acabou por "empurrar" Claudio Biern Boyd para esta indústria, na qual já trabalha há quase quatro décadas. Ainda que não queira revelar qual é o desenho animado da sua vida, o empresário destaca Popeye, Dumbo, Bambi e Tom & Jerry como os mais marcantes.

"Os noticiários são muito mais violentos do que os desenhos"

Dartacão, Julieta, Willy Fog e David, o Gnomo já têm um lugar cativo no coração de Claudio Biern Boyd e que o tempo jamais apagará. Mas numa indústria tão competitiva e agressiva como a televisão não se pode ficar parado no tempo nem ficar agarrado a saudosismos. E é precisamente por isso que a BRB Internacional já está a preparar uma nova série de animação inspirada no jogo de computador Invizimals, da Sony.

Não obstante os avanços tecnológicos e o predomínio cada vez mais crescente da internet na vida das crianças, o empresário encara o futuro com grande otimismo, embora reconheça que haverá "mudanças radicais". "Há um novo sistema de produção, passámos de uma forma de fazer desenhos artesanal para o uso de técnicas muito avançadas. Além disso existem formas diferentes de interatividade à disposição dos mais novos. Eles não veem TV apenas da forma tracional, como acontecia há uns anos. Agora têm tablets e smartphones que permitem um acesso instantâneo a qualquer tipo de programa. Temos de adaptar-nos a isso", reconhece Claudio Biern Boyd.

Além do avanço tecnológico que atingiu os desenhos animados e que alterou a sua aparência, há também quem considere que hoje existe uma grande dose de violência nos programas infantis. O presidente da BRB Internacional alerta que em muitos casos confunde-se "violência com ação", pelo que é necessário ter cautela. Claudio Biern Boyd frisa ainda que nos dias de hoje as crianças são muito mais espertas do que julgamos, pelo que sabem perfeitamente que "um desenho animado está inserido num mundo de fantasia" que nada tem que ver com a realidade. "Para mim, os noticiários são muito mais violentos do que os desenhos animados", remata.

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